Sobre os milagres

Por C. S. Lewis

Só conheci uma pessoa na minha vida que disse ter visto um fantasma. Era uma mulher; e o mais interessante é que ela, antes de ter visto o fantasma, disse que não acreditava na imortalidade da alma e, depois de o ter visto, continuava a não acreditar. Ela pensava que era uma alucinação. Noutras palavras, ver não é acreditar. É a primeira coisa que deve estar clara quando se fala em milagres. Qualquer que seja a experiência que tenhamos, não a vemos como sendo milagrosa se já confiamos numa filosofia que exclui o sobrenatural. Qualquer evento que reclamamos como milagre é, em última análise, uma experiência recebida pelos sentidos; e os sentidos não são infalíveis. Podemos sempre dizer que fomos vítimas de uma ilusão; se não acreditarmos no sobrenatural é o que diremos sempre. Assim, quer os milagres tenham cessado ou não, aparentemente cessaram no nosso mundo ocidental na medida em que o materialismo se tornou o credo popular. Pois não nos enganemos. Se o fim mundo nos aparecesse com os sinais literais do Apocalipse, se o materialista moderno visse com os seus próprios olhos os céus a desaparecerem e o grande trono branco a aparecer, se ele tivesse a sensação de ser lançado no lago de fogo, continuaria indefinidamente, no próprio lago, a ver a sua experiência como uma ilusão e a tentar encontrar uma explicação na psicanálise ou na patologia cerebral. A experiência por si só não prova nada. Se um homem duvida se está a sonhar ou acordado, nenhuma experiência pode resolver a sua dúvida, pois toda e qualquer experiência pode fazer parte do seu sonho. A experiência prova isto, ou isso, ou aquilo, de acordo com os nossos preconceitos.

A experiência de um milagre requer duas condições: primeiro temos que acreditar na estabilidade normal da Natureza, o que significa que reconhecemos que os dados oferecidos pelos nossos sentidos ocorrem em padrões regulares; segundo, temos que acreditar numa realidade para além da Natureza. Quando as duas crenças são sustentadas - e nunca antes disso - podemos abordar com uma mente aberta as várias narrativas que afirmam que esta realidade super ou extra natural tem, por vezes, invadido e incomodado o conteúdo sensível do espaço e do tempo que faz o nosso mundo "natural". A crença numa realidade sobrenatural não pode ser nem provada nem refutada pela experiência. Os argumentos para a sua existência são metafísicos e, quanto a mim, conclusivos. Eles realçam o facto de que mesmo que pensemos e ajamos no mundo natural temos igualmente que assumir que pertencemos parcialmente a esse "outro". E para pensar, temos que reivindicar, para o nosso próprio raciocínio, uma fundamentação que não é credível se o nosso pensamento for simplesmente uma função do cérebro e o nosso cérebro um simples produto de um processo físico irracional. E para agirmos, acima do nível do mero impulso, temos também de reivindicar uma fundamentação similar para a nossa capacidade de julgar entre o bem e o mal. Em ambos os casos obtemos o mesmo resultado inquietante: o conceito de "Natureza" em si mesmo é algo que atingimos tacitamente reivindicando uma espécie de estatuto sobrenatural de nós mesmos.



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LEWIS, C.S., Milagres, São Paulo: Editora Vida

Sou sincero naquilo que creio, logo, sou salvo

Porque é que Deus pede fé em Jesus para se ser salvo? Quase toda a gente está de acordo que o sentimento profundo de sinceridade deveria bastar. O que Deus quer mais que um coração sincero? É tudo o que um bom homem ou mulher quer na vida.

Ninguém aceita a sinceridade como suficiente em qualquer outro domínio sem ser a religião. Ela pode ser necessária, mas não é suficiente. É suficiente que o seu médico ou contabilista seja sincero? É a sinceridade uma condição única para evitar morrer de cancro ou ir à falência? Não é! Porque seria então diferente para salvá-lo do inferno?

A concepção moderna da religião difere bastante daquela que outrora era sustentada:

  • Modernamente vê-se a religião mais subjectivamente que objectivamente; como algo dentro de nós e na nossa consciência mais que algo dentro do qual nós e a nossa consciência estamos. Os modernos educadores religiosos falam menos de Deus do que das nossas experiências e práticas religiosas.
  • Modernamente vê-se a religião unicamente como prática e não como teórica; como boa e não como verdadeira; como moral e não como teológica; como um padrão de vida e não como um mapa da realidade. Ela torna-se, então, pragmática e relativa: se funciona contigo, usa-a.
  • Modernamente vê-se a religião como obra humana e não como obra divina; algo que criámos mais do que descobrimos; a nossa via para Deus mais do que a via de Deus para nós.
  • Modernamente vê-se a religião como uma adição mais do que uma subtracção; como um auto-crescimento mais do que uma auto-morte; um exercício mais do que uma cirurgia. Isto porque a mente moderna não acredita numa realidade chamada pecado.

No entanto:

  • A sinceridade subjectiva não é suficiente se estivermos a lidar com a realidade objectiva. Duas coisas são necessárias sempre que lidarmos com a verdade objectiva: temos de ser sinceros na busca da verdade, mas também temos realmente de a encontrar!
  • A sinceridade somente não chega para tornar um mapa verdadeiro e se um mapa não é verdadeiro é inútil.
  • A sinceridade somente não chega para encontrar a estrada que alguém fez, embora seja suficiente para lembrar-te daquela que tu próprio fizeste.
  • A sinceridade somente não chega para te livrar do pecado, assim como não chega para te curar de um cancro.. Precisas de um médico verdadeiro. Não podes fazê-lo sozinho. Como podes submeter-te à tua própria cirurgia? Assim como se caíres em areias movediças não é a tua sinceridade que te salva, mas alguém que te tire de lá. Precisas mais que a tua sinceridade. Precisas de um SALVADOR. A sinceridade é necessária para a salvação - somente os que sinceramente a buscam a encontram - mas não é suficiente.



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Fonte: Sempre Reformanda

A Bíblia: Mito ou História?



Por Peter Kreeft

Zé: Carlos, tenho de perguntar-te algo de pessoal.

Carlos: Força, Zé: afinal somos amigos, não somos?

Zé: Como é que sabes tanto sobre Deus? Será que és um cérebro teológico?

Carlos: Não, nada disso. Sou apenas uma pessoa comum.

Zé: Deves ter feito algum curso superior de teologia algures.

Carlos: Não,...

Zé: Então deves ter lido centenas de livros.

Carlos: Não, Zé. Na verdade, o que conheço de Deus vem num só livro. De facto, tudo o que a raça humana conhece verdadeiramente sobre Deus, não unicamente como matéria de especulação e adivinha, vem de um só livro.

Zé: A Bíblia, queres dizer?

Carlos: Sim.

Zé: Acreditas mesmo que esse livro diz todos os factos sobre Deus?

Carlos: Todos os factos? Claro que não. Como é que alguma vez poderíamos ter todos os factos do Deus infinito? Ninguém pode ter conhecimento completo de Deus, não mais do que uma formiga pode ter de nós. Ainda menos, na realidade, porque a diferença entre nós e uma formiga é finita, enquanto a diferença de nós com Deus é infinita.

Zé: Alguns factos, então?

Carlos: Sim, aquilo que Ele nos disse.

Zé: Então pensas que tens alguns factos sólidos na Bíblia, hum?

Carlos: Não sei o que queres dizer com "factos sólidos".

Zé: Como aqueles que a ciência nos dá.

Carlos: Não. A ciência mede coisas. Nós não podemos medir Deus.

Zé: Então, trata-se apenas de um mito.

Carlos: Não, é a verdade.

Zé: Queres dizer que acreditas que Deus está sentado no céu, num trono dourado, tem uma mão direita forte e zanga-se?

Carlos: Não. Isso é linguagem poética. Mas tu sabes que podes dizer a verdade em linguagem poética. Deus está realmente elevado - embora não fisicamente - no espaço, no céu. Deus governa o universo, embora não o faça a partir de um trono dourado material. Deus tem todo o poder, embora não tenha a mesma espécie de força que o Muhammad Ali tem no seu punho direito. E Deus quer realmente que façamos o bem e não o mal, embora não fique histérico nem perca as estribeiras.

Zé: Então é só simbolismo.

Carlos: Simbolismo, mas verdadeiro. Não é uma história inventada, como o pai-natal.

Zé: Então admites que a Bíblia inteira é simbolismo poético e não História literal.

Carlos: Eu não disse isso. Eu disse que a linguagem que ela usa para descrever Deus tem de ser simbólica. Deus não pode ser descrito literalmente porque não o vemos. Ele não possui um corpo físico. Mas há muitas coisas na Bíblia que são descritas literalmente, coisas que se podem ver.

Zé: Como é que podes definir quais as partes a interpretar simbolicamente e literalmente? Não é só devido à tua preferência pessoal?

Carlos: Não, existe um padrão objectivo.

Zé: Sim? Qual é?

Carlos: É simples, na verdade. A linguagem sobre coisas visíveis é literal e a linguagem sobre coisas invisíveis é simbólica.

Zé: Então a história da criação do universo é literal? Trata-se de coisas visíveis, o universo.

Carlos: Mas antes da criação de Adão e Eva não havia ninguém para ver. Logo, a descrição não é de testemunhas oculares. É verdadeira, mas provavelmente não literal. Os "6 dias" da criação, por exemplo, não têm de ser dias de 24 horas.

Zé: E o último livro da Bíblia, o Apocalipse — todas aquelas coisas sobre o fim do mundo, cavalos e montanhas a arder a entrarem no céu e anjos a tocar trombetas — isso também não é literal, correcto?

Carlos: Correcto. É simbolismo, mas é verdade. Isso vai acontecer, assim como a criação aconteceu.

Zé: Mas não é literal pois não há ninguém lá para ver. É o futuro.

Carlos: Bom, as profecias sobre o futuro podem ser literais. Tu podes predizer coisas literalmente. Algumas passagens da Bíblia o fazem. Por exemplo, o Velho Testamento prediz dúzias de detalhes específicos sobre o Messias que aconteceram, literalmente, a Jesus, como ter sido vendido por trinta moedas, e as suas roupas terem sido sorteadas ao jogo.

Zé: Acho que estou mais interessado em saber se interpretas literalmente as histórias dos milagres ou não.

Carlos: Se forem exprimidos literalmente, sim.

Zé: Como o dilúvio de Noé e as pragas do Egipto e a passagem do Mar Vermelho? E todos os milagres de Jesus? E a ressurreição literal?

Carlos: Sim.

Zé: Pois eu não.

Carlos: Não o quê?

Zé: Não acredito nas histórias dos milagres. Logo não os interpreto literalmente, mas simbolicamente.

Carlos: Estás confundido, Zé.

Zé: Queres dizer que achas que estou enganado. Mas não estou confundido. Eu sei no que acredito e no que não acredito.

Carlos: Não, quero dizer que estás confuso. Estás a confundir duas questões diferentes: interpretação e crença.

Zé: O que é que queres dizer?

Carlos: A questão da interpretação é: o que é que o escritor quer dizer? A questão da crença é: concordas com ele? A questão da interpretação é: o que é que a Bíblia reclama ser verdade? A questão da crença é: o que achas que é realmente verdade?

Zé: Bom, eu interpreto a Bíblia segundo as minhas crenças.

Carlos: Mas isso é a tua confusão, Zé. supõe tu que eu leio um discurso de Hitler que diz que devemos criar uma super-raça de alemães e matar todos os judeus. Supõe que eu não acredito nessa ideia, logo interpreto o discurso segundo a minha crença e digo que aquilo que o discurso quer mesmo dizer é que todas as raças são iguais e devemos amar-nos uns aos outros. Estás a ver como posso ficar confuso?

Zé: Não sobre a raça, ou o amor.

Carlos: Mas sobre o que Hitler quis dizer!

Zé: Está bem, estou a ver. Mas será que isso não seria bom para melhorar esse discurso tão terrível?

Carlos: Se quiseres melhorar o discurso, sim. Se quiseres escolher a tua crença, sim. Mas se quiseres saber o que o Hitler queria dizer, não. É essa a tua confusão. Achas que as histórias dos milagres são falsas. Porque não o dizes claramente? Elas ou são mentiras ou histórias verdadeiras. Não são mitos. Elas não são contadas mítica, ou poética, ou simbolicamente.

Zé: Mas eu acho que são. O que é que pode ser mais poético e simbólico que a vida vir da morte - a ressurreição de Jesus é como a Primavera. E a travessia do Mar Vermelho por Moisés é o símbolo perfeito para o triunfo sobre a morte, ou qualquer outro obstáculo. Existem todas as espécies de significados poéticos, ou simbólicos nos milagres.

Carlos: Concordo. Mas isso não quer dizer que também não sejam literais. São sinais. Mas um sinal existe realmente — se literalmente não houver um sinal de trânsito num poste, este não simboliza absolutamente nada, não é? Logo, se realmente Moisés não atravessou o Mar Vermelho, não é um sinal real de nada. Acredito que os milagres sejam sinais e símbolos, tudo bem. mas também acredito que eles realmente aconteceram. Não são unicamente histórias, ou mitos. É tudo o que tu achas que eles são, não é?

Zé: É.

Carlos: Então concordas com os desmistificadores.

Zé: O que é isso?

Carlos: É a palavra tornada popular pelo teólogo alemão Rudolf Bultmann. Quer dizer que as histórias dos milagres são apenas mitos, e que devemos acreditar no resto da Bíblia, mas não nos mitos. Muitos teólogos acreditam nisso. Muitos rabis, padres e pastores também. Alguns escritores dos livros de catequese também.

Zé: Então estou em boa companhia.

Carlos: Não, mas numa companhia numerosa. A verdade não se encontra contando as cabeças. Preferiria concordar com Deus mesmo que só alguns indivíduos concordassem comigo, mais do que concordar com milhões de indivíduos que discordassem de Deus.

Zé: Bom, o clero não ensina a desmistificação? Disseste que muitos rabis e padres e pastores acreditam nisto. Será que são heréticos?

Carlos: Tecnicamente, sim. Se discordarem com os ensinos fundamentais da Bíblia. No entanto, a palavra "herético" quer dizer muito mais...

Zé: Pareces triste. Queres queimar heréticos, como na Inquisição?

Carlos: Claro que não. Podes etiquetar correctamente uma ideia sem quereres queimar os que acreditam nela.

Zé: Ainda bem, pois acho que sou herético. Eu penso por mim. Não engulo simplesmente tudo aquilo que a Igreja me dá.

Carlos: Então tens razões para discordar?

Zé: Certamente.

Carlos: Acho que consegues adivinhar qual vai ser a minha próxima pergunta.

Zé: Falávamos sobre aquelas razões na conversa que estávamos a ter sobre os milagres.

Carlos: Sim. Vês, tudo está ligado. Se não existir um Deus sobrenatural com poder para realizar milagres, então os milagres não existem. E se os milagres não acontecem, então Jesus realmente não ressuscitou dos mortos. Se Cristo não ressuscitou dos mortos, esta história é apenas um mito e os desmistificadores têm razão (embora ainda confundam as duas questões da interpretação e da crença; deveriam dizer que essas histórias são mentiras, não um mito). Tens alguma outra razão, ou nova razão, para sermos desmistificadores da Bíblia?

Zé: Sim, tenho. Tenho lido alguns livros sobre isso e acho que encontrei pelo menos quatro boas razões para ser céptico sobre a Bíblia.

Carlos: Força. Quais são?

Zé: Por um lado, há aquilo que chamam "criticismo da forma". Isso quer dizer que devemos interpretar um texto não absolutamente, mas relativamente à sua forma literária. Se a forma é poética, ou mitológica, ou é uma parábola, não deves aceitá-la literalmente.

Carlos: É um bom princípio. Então aplica-o igualmente às testemunhas oculares, às narrativas históricas e interpreta-as literalmente, assim como interpretas o simbolismo simbolicamente. As narrativas dos milagres têm a forma histórica, não mitológica!

Zé: Pois não. E eis o meu segundo ponto: as semelhanças entre os milagres da Bíblia e os mitos. Ambos estão cheios de magia. E coisas como números mágicos: dez pragas, quarenta dias de jejum, três dias no sepulcro.

Carlos: Queres dizer que nunca ninguém jejuou por quarenta dias e que as pragas podem vir em qualquer número de vezes, menos dez? Ou que se Jesus tivesse passado quatro dias no sepulcro seria mais provável que acreditasses?

Zé: Bem, não. Mas será que não devemos distinguir duas questões diferentes, a questão da crença e a questão da História? É esse o meu terceiro ponto. Quer Moisés tenha atravessado o Mar vermelho ou não, não é importante; é a questão da História. O importante se Deus estava lá ou não. A questão da Bíblia é religiosa, não é histórica.

Carlos: Mas a religião da Bíblia depende da História. É Deus a operar na História. A tua distinção entre História e religião encaixa nas religiões orientais, não nas ocidentais. Não é importante que Buda tenha realmente existido; a única coisa importante é a meditação e o caminho da prática budista. O cristianismo é diferente: trata-se de Cristo. Se Ele nunca viveu, ou nunca morreu e ressuscitou, então o cristianismo é simplesmente uma mentira. Será que não és suficientemente honesto para lhe chamares isso se for isso a tua crença?

Zé: Mas tem tanta coisa boa a dizer sobre ética, amor e boa vizinhança.

Carlos: Toda a gente já conhece isso, embora nem toda a gente o pratique. Lembras-te da nossa primeira conversa? Se a ética é tudo o que o cristianismo significa, então esquece o cristianismo.

Zé: Porquê?

Carlos: Porque seria apenas uma cópia de outras boas filosofias e moralidades. Ele pretende ser diferente; ele pretende ser História, "boas novas", evangelho: que Deus veio ao mundo, morreu na cruz e ressuscitou para salvar-nos dos nossos pecados, da morte e do inferno.

Zé: Isso é o que tu dizes que é!

Carlos: É simplesmente o que o cristianismo é e foi desde o princípio. Se não acreditas nisso, então não és cristão. Unicamente concordar com a ética de Cristo não faz de ti um cristão, não mais do que concordar com a ética de Buda faz de ti um budista.

Zé: Bem, penso que tenho que dizer que afinal não sou um cristão.

Carlos: Boa! É o primeiro passo para te tornares num.

Zé: Mas ainda tenho mais uma razão para não acreditar nas histórias da Bíblia. Ainda não acabámos os meus quatro pontos, lembras-te?

Carlos: Desculpa. Qual é o quarto ponto?

Zé: Existem contradições e incoerências internas na Bíblia e suas histórias. Nem todas podem ser verdadeiras.

Carlos: Diz uma.

Zé: Jesus falou o sermão do monte numa vez como diz Mateus, ou em diferentes ocasiões como diz Lucas?

Carlos: Porque não poderiam ser as duas? Mateus não diz que Jesus disse tudo de uma vez, apenas diz que Jesus disse.

Zé: Bom, e em relação aos dizeres na cruz? Quantas palavras lá estavam? Cada evangelho tem uma versão diferente.

Carlos: Porque não podem todas ser verdade, mas algumas abreviadas, do género versão Reader's Digest, por assim dizer? Se a placa dizia realmente "Este é Jesus de Nazaré, o rei dos judeus", então o relato que diz simplesmente "Jesus, rei dos judeus" não é falso, mas abreviado. O ponto essencial permanece o mesmo. Mostra-me uma única contradição sobre um único ponto essencial de substância, não uma questão de estilo verbal.

Zé: Bem, de qualquer modo são diferentes.

Carlos: O simples facto dos Evangelhos apresentarem a mesma narrativa de maneiras diferentes é uma sólida evidência de que a narrativa é verdadeira — como se quatro testemunhas em tribunal contassem o mesmo facto de quatro maneiras diferentes. Se o contassem de uma maneira igual, palavra por palavra, terias pensado que o teriam inventado e preparado de antemão. As diferenças não são equivalentes a contradições. E os quatro Evangelhos concordam entre si notavelmente — muitíssimo mais que qualquer outro conjunto de documentos sobre outro acontecimento antigo.

Zé: Mas um acontecimento tão antigo — não será como se a narrativa tivesse sido deturpada, como aquele jogo onde as pessoas se sentam em círculo e passam uma mensagem ao ouvido umas das outras? No final, a última pessoa recebe uma mensagem completamente diferente.

Carlos: É a razão pela qual a Igreja escreveu a Bíblia e preservou este livro com um cuidado infinito.

Zé: Bem, mesmo assim, não interessa com quanto cuidado o livro foi preservado, é apenas um livro. Escrito por seres humanos. São as suas ideias sobre Deus.

Carlos: É a questão essencial sobre a Bíblia: trata-se das nossas ideias sobre Deus ou das ideias de Deus sobre nós? É a palavra de Deus para nós, ou as nossas palavras sobre Deus?

Zé: Sim, é a questão essencial, está bem. É como a questão sobre Deus: foi Ele que nos criou à sua imagem ou fomos nós que O criámos à nossa imagem?

Carlos: Sim, e é essa também a questão essencial sobre a história cristã: será que é a história da nossa busca por Deus ou a história da busca de Deus por nós? É Deus descendo em Cristo, o "único caminho" para baixo, ou somos nós tentando subir a Deus, sendo Cristo apenas um dos muitos caminhos humanos ascendentes, uma das muitas religiões feitas pelos homens?

Zé: Pelo menos tens as questões definidas. E vejo que todas essas questões são partes de uma questão: a questão sobre se a Bíblia é a palavra de Deus ou nossa, a questão de Deus ser criador ou ter sido criado por nós, a questão de Cristo ser o caminho de Deus "para baixo" ou o nosso "caminho para cima", e a questão sobre se a religião cristã é o único caminho divino ou apenas mais um dos muitos caminhos humanos. Tudo isso encaixa.

Carlos: Será que falhei a responder a alguma das tuas razões para não acreditares na Bíblia?

Zé: Bom, não, nem por isso.

Carlos: Então a razão da tua descrença deve ser algo mais do que aquilo em que falámos. Esclarecemos a questão, mas não esclarecemos o real motivo pelo qual a tua resposta é "não".

Zé: O que pensas que é o meu motivo real? Vais-me analisar psicologicamente?

Carlos: Não, mas creio saber porquê, e só posso pedir-te honestamente para perguntares honestamente a ti próprio se a minha razão é rigorosa ou não. Queres acreditar nos desmistificadores, não queres?

Zé: Quero.

Carlos: Porquê? Porque não acreditas em milagres, não é?

Zé: Sim.

Carlos: E porque é que não acreditas em milagres? Porque se os milagres acontecem então Cristo realmente ressuscitou dos mortos, e logo Ele não é somente um ideal humano, mas é realmente Deus — o Deus de toda a gente, o teu Deus também, Zé. Logo Ele tem direitos sobre a tua alma e vida, aqui e agora. Então tens de O encarar e arrepender-te, dar meia-volta, implorar perdão, e deixar que Ele seja o teu Senhor ao invés de tu seres o teu próprio Senhor. Não é qualquer coisa confortável ou fácil de fazer, e não estou a rebaixar-te por não o fazeres. Estou só a tentar que sejas honesto contigo mesmo e que te conheças a ti próprio. Só tu podes responder à pergunta: é esse realmente o motivo porque não acreditas? Suspeito que é a razão, porque nenhum dos teus argumentos se mantém de pé. O edifício da tua crença não tem alicerces racionais sólidos. Todos os teus argumentos podem ser objectados. Apenas escolheste não acreditar na existência de Deus, nem dos milagres, nem na ressurreição, nem na salvação.

Zé: Talvez, Carlos somos amigos, logo temos de ser honestos um com o outro. Aprecio a tua franqueza nesta conversa — os conhecidos têm de ser educados, mas os amigos podem confrontar-se, dizer as verdades uns aos outros. E tenho de ser honesto contigo como tu foste comigo: simplesmente não sei.

Carlos: Essa é uma descoberta maravilhosa, Zé: que não sabes. É o princípio da sabedoria.


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Fonte: Peter Kreeft. Traduzido do inglês pelo editor do site Semper Reformanda

O projeto exige um Projetista


Por por Kyle Butt, M.A.

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Isaac Newton foi um famoso matemático e cientista que cria firmemente em Deus. Conta-se que ele tinha um amigo ateu e que, desejoso de convencer seu amigo da existência de um Deus criador, elaborou um plano: Foi até a carpintaria e encomendou um modelo do sistema solar. Este modelo deveria ser uma réplica fiel do nosso sistema.

Várias semanas depois Sir Isaac recolheu o modelo na carpintaria, colocando-o no centro da mesa em sua casa, um lugar de destaque. Um dia, seu amigo ateu veio visitá-lo e ao chegar, ficou impressionado com a precisão daquela réplica. Foi logo perguntando se podia observar mais de perto, o que Isaac permitiu. Ele ficou grandemente admirado ao observar a singularidade de cada peça. Logo, perguntou a Isaac quem era o autor daquela maravilhosa réplica. Muito sábio, Isaac respondeu que a réplica não possuía um escultor e que ele aparecera em sua mesa por causalidade.

Confuso, o amigo ateu repetiu a pergunta, obtendo a mesma resposta: o modelo era produto do acaso, e havia surgido do nada. Quando o ateu pareceu estar enfadado, Isaac apresentou o propósito da sua resposta. “Se ele não podia convencer a seu amigo que aquela réplica ordinária do sistema solar havia surgido do nada, “por acidente”, como podia seu amigo crer que o sistema solar real, com toda sua complexidade e projeto, pode surgir da soma do tempo e do acaso?

Todo projeto demanda um projetista, e como exemplo, consideremos um órgão do corpo humano que nos remete ao Projetista.


O pensamento demanda projeto.

Dentro da sua cabeça se encontra um órgão que pesa cerca de 1,3 quilos. Os médicos que operam este órgão dizem que quando o tocam , sentem como se estivessem tocando uma massa de pão. Porém, este órgão que chamamos de cérebro é muito mais que uma mera massa de pão. Ao contrário, é o “computador” mais complexo e avançao que o mundo conheceu.

Nosso cérebro está composto de mais de 10 trilhões de células diferentes. Estas células trabalham em conjunto para enviar impulsos elétricos a uma velocidade de 439 quilômetros por hora. As células nervosas do corpo enviam 2 mil impulsos ao cérebro a cada segundo. Estes impulsos provém de 130 mil receptores de luz no olho, 100 mil receptores de som nos ouvidos, 3 mil na língua e mais de 500 mil provenientes do tato. Enquanto isso acontece, o cérebro não se move, mesmo consumindo mais de 25% do oxigênio do corpo e 20% do sangue que é bombeado pelo coração (o que é impressionante, uma vez que o cérebro representa apenas 2% do peso do corpo).

Se todas estas habilidades do cérebro não lhe impressionam, considere ainda o fato de que o cérebro funciona como “médico” para o resto do corpo, produzindo mais de 50 substâncias terapêuticas, desde analgésicos (como a endorfina) até antidepressivos (como serotonina). Adicionalmente, o cérebro permite memorizar palavras, fragrâncias, imagens e cores. Certamente, o cérebro faz um trabalho tão excelente ao ajudar uma pessoa a encontrar uma informação, que estima-se que seriam necessárias 500 enciclopédias para reunir toda informação encontrada nele.

Sejamos honestos: Se estivéssemos andando por um bosque e encontrássemos um notebook pesando menos de 1,3 quilos, desses comuns, capazes de fazer apenas as tarefas ordinárias como qualquer outro computador do mercado, será que seríamos capazes de simplesmente dizer que aquele computador surgiu por um “acidente”? Basta usar nossos cérebros para perceber que encontramos um projeto, e que o mesmo demanda a existência de um projetista.


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Traduzido por Leonardo Gonçalves, editor. Texto disponível no site Apologetic press, com versão em inglês e espanhol.


Bradley Monton, cientista ateu, defende o Inteligent Design


Bradley Monton é um ateu que é professor de Filosofia da Universidade do Colorado, em Boulder.

Trabalhando na área da filosofia da ciência, epistemologia probabilística, filosofia do tempo, e filosofia da religião, ele escreveu um livro (ainda não publicado) sobre o Design Inteligente.

No livro ele defende, entre outras coisas, que “é legítimo ver o design inteligente como ciência”, e que “o design inteligente deveria ser ensinado nas aulas de ciência das escolas públicas”. Leia:


“A doutrina do design inteligente foi ostracizada pelos ateus, mas mesmo eu sendo um ateu, eu sou da opinião de que os argumentos a favor do design inteligente são mais fortes do que a maioria percebe. O objectivo deste livro é o de tentar fazer com que as pessoas levem a sério o design inteligente. Defendo que é legítimo ver o design inteligente como ciência, que há alguns argumentos plausíveis para a existência de um criador cósmico, e que o design inteligente deveria ser ensinado nas aulas de ciência das escolas públicas"

“O livro está escrito de uma forma que pode cativar tanto professores como não-académicos. Prevejo que tanto os defensores como os opositores do design inteligente estarão interessados em lê-lo. Nele concordo com muito do que dizem os defensores do design inteligente -tentando ser intelectualmente honesto e dando crédito aos seus proponentes sempre que este é devido. Ao rejeitar os argumentos falaciosos contra o design inteligente, estou ajudando todos a compreender as questões e argumentos de forma mais clara. A longo prazo, isto é o que vai dar o maior apoio à causa da razão."

“Tanto quanto sei, ninguém publicou um livro como este nem está no processo de escrever um. Existe uma quantidade razoável de literatura hoje sobre ateísmo vs teísmo, e sobre os méritos do design inteligente, mas essa literatura se tornou como uma guerra entre dois campos, e o objectivo do meu livro é transcender isso."


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Fonte: Design Inteligente

 
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